Estudo bíblico: Páscoa e seu significado

Publicado por José Geraldo Magalhães em Geral  |  04/04/2012 às 16:05:00

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I. O nome, Páscoa, e seu significado

Na Bíblia Hebraica, a palavra pesah, páscoa, é usada para significar:

A. mancar, coxear.
B. saltar sobre.
C. A vítima do sacrifício, isto é, o cordeiro pascal.

Farás o sacrifício da Páscoa (...) Dt 16,2; conforme versos 5 e 6.

 

II. O uso do verbo pesah, coxear, saltar, na história bíblica


Não há muitas ocorrências no AT e no NT do verbo pesah, porém é muito significativo o seu uso.

A. O verbo pesah com o sentido de coxear, mancar

Então, Elias se chegou a todo povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.
Porém o povo nada lhe respondeu (1Rs 18,21).

B. O verbo pesah com o sentido de saltar.
No relato da Páscoa, o verbo pesahé usado com o sentido de saltar,para proteger as casas dos hebreus, da ação do destruidor.

E Javé passará para ferir os egípcios. E quando vir o sangue sobre a travessa da porta, e sobre ambas ombreiras. E Javé saltará sobre a porta, e não permitirá ao destruidor entrar em vossas casas para ferir (Ex 12,23).

E vós dizeis: Esta páscoa é para Javé que saltou sobre as casas dos filhos de Israel, no Egito, quando feriu os egípcios, e livrou nossas casas. E o povo a ajoelhou-se(Ex 12,27).

E o sangue será para vós por sinal sobre as casas que estiverdes lá: quando eu vir o sangue, e eu saltarei sobre vós, e não haverá convosco praga pelo destruidor, quando eu ferir na terra do Egito (Ex 12,13).

 

III. Tentando interpretar o sentido do verbo pesah, coxear e saltar

Os profetas, autênticos e incansáveis proclamadores e intérpretes da palavra de Deus para o povo usaram esta divergência – coxear e saltar – para aprofundar o sentido da ação salvadora de Deus.

Primeiramente, vamos tomar uma reportagem inserida na história de Elias. Tomaram o novilho que lhes fora dado, preparam-no e invocaram o nome de Baal, desde a manhã até ao meio dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém não havia uma voz que respondesse; e, manquejando, se movimentavam ao redor do altar que tinham feito (IRs 18,26).

O autor da história de Reis usou o sentido de coxear para afirmar a presença salvadora e protetora de Deus no confronto com os profetas de Baal. Ele quer afirmar que os profetas de Baal coxeiam, mancam, e não encontram a resposta para os seus clamores.

Ao afirmar isso, o texto bíblico quer assegurar que Javé não manca com os seus seguidores, mas Ele salta para salvar e proteger o povo. A continuação da história atesta esta verdade.

De modo intencional, o deuteronomista sutilmente ridiculariza os profetas de Baal. Só Javé responde aos pedidos de seus fiéis, e Javé não coxeia e não manca com aqueles que gritam, pedindo sua ajuda.


Em segundo lugar, apesar de parecer que o significado de pesah, coxear e saltar, seja divergente, o profeta Isaías soube como conciliar o que, até então, era inconciliável: coxear e saltar.

(...) Sede fortes,
Não temais!
Eis que vosso Deus vem para vingar-vos,
trazendo a recompensa divina.
Ele vem para vos salvar.
Então se abrirão os olhos dos cegos,
e os ouvidos dos surdos se desobstruirão.
Então o coxo saltará como o cervo,
e a língua do mudo cantará canções alegres,
porque a água jorrará no deserto.
e rios da estepe.
A terra seca se transformará em brejo,
e a terra árida em mananciais de água... (Is 35,4-7)


O profeta Isaías, no propósito reagir contra qualquer aliança com os povos vizinhos, afirma que a proteção de Javé é suficiente para o povo de Deus. O profeta aproveita esta aparente divergência para afirmar o milagre de Javé na história: Ele transforma os oprimidos em pessoas libertas; Ele concede forças ao que não têm nenhum vigor. Assim, Isaías aprofundou mais a noção do verbo pasahcomo saltar para a salvação.

Javé dos Exércitos protegerá Jerusalém,
Ele protegerá e libertará,
Ele saltará sobre e salvará(Is 31,5)

O profeta Isaías, no propósito reagir contra qualquer aliança com os povos vizinhos, afirma que a proteção de Javé é suficiente para o povo de Deus. O verbo pesah é usado, por Isaías, para caracterizar o milagre da proteção, libertação e salvação de Javé sobre o povo bíblico, diante da Assíria, a maior potência política do oitavo século antes de Cristo.

 

III. O sentido de pesah no Novo Testamento

A língua grega não contempla a teologia da mesma forma que a língua hebraica. O substantivo páscoa segue a mesma grafia, e a palavra coxo escreve de forma diferente: é xwlos. Porém, a relação hebraica dos verbos coxear, mancar com pular, saltar seguem o mesmo sentido usado pelo profeta Isaías. Nos dias de Jesus, o Novo Testamento reporta, em diferentes ocasiões, o encontro de Jesus com pessoas portadoras de deficiência física. A atitude de Jesus nunca foi de explicar essa deficiência com o argumento da maldição hereditária. Diante do coxo, Jesus procurava devolver-lhe a saúde física, incluindo-os na sociedade, bem como nas festas religiosas. A cura de um coxo é, para Jesus, anúncio do Reino de Deus, tal como o profeta Isaías anunciara muitos séculos antes.

Ao dares um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem os vizinhos ricos; para que não te convidem por sua vez e te retribuam do mesmo modo. Pelo contrário, quando deres uma festa, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que te retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos (Lc 14,12-14).


Atos dos Apóstolos relata a cura de coxo (At 3,1-10). O contexto dessa cura está no esforço dos apóstolos Pedro e João de continuarem sinalizando a presença de Jesus, mesmo após a sua morte e ressurreição.

E tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente os seus pés e artelhos se firmaram; de um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no Templo, saltando e louvando a Deus(At 3,7-8).

É sugestivo observar que o duplo significado hebraico do verbo pesah está presente nestes textos. Eles tentam afirmar o milagre de Deus que transforma a impossibilidade do coxo na possibilidade da ação de Deus, protegendo e salvando.

Rev. Tércio Machado Siqueira
professor da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo - UMESP

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